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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

LANCAMENTO DE LIVRO

O Dr. Neury Botega , medico psiquiatra e professor da UNICAMP, lançou com base em sua experiência clinica e teórica um livro sobre Crise Suicida de grande interesse para todos que tratam do tema. Veja abaixo um briefing sobre o livro.
 
Crise Suicida
Avaliação e Manejo                                                             

Neury J. Botega
Artmed Editora, 2015
 
Trechos da Introdução
Neste livro escrevo sobre uma experiência que faz parte de meu dia-a-dia, tanto no hospital universitário quanto no consultório: atender pacientes em crise suicida. Com isso, espero que a sistematização dessa experiência, no formato de um livro, possa contribuir para o aprimoramento da clínica. Faço, também, um apanhado dos percursos e desafios dos quais participei numa área onde se dão, no Brasil, os primeiros passos: a prevenção do suicídio.
A temática do suicídio está aberta a diferentes visões e a várias ciências. Devido à sua natureza dilemática, complexa e multidimensional, não há uma maneira única de olhar ou abordar o problema. O referencial teórico aqui apresentado, eclético, visa incentivar o leitor a refletir e a eleger o que mais se adéqua à sua prática e à condição única de seu paciente.
 A crise pode ser tão dolorosa, quanto potencialmente útil, variando com a gravidade daquilo que ela afeta ou põe em causa. O significado de um acontecimento, de uma situação inesperada, precisa ser encontrado e integrado na história do sujeito, incorporando-se a uma nova perspectiva de vida.
A crise pode levar ao colapso existencial, com vivências de angústia e desamparo, de incapacidade e esgotamento, de falta de perspectiva de solução, um não encontrar saída. Se ultrapassar a capacidade pessoal de reação e de adaptação, pode aumentar a vulnerabilidade para o suicídio, que passa a ser visto como solução única para uma situação insuportável.
A palavra suicídio é conhecida desde o século XVII. As várias definições de suicídio costumam conter uma ideia central, mais evidente, ligada ao ato de terminar com a própria vida, juntamente com ideias periféricas, menos evidentes, relacionadas à motivação, à intencionalidade e à letalidade.
Na crise suicida há a exacerbação de uma doença mental existente, ou a turbulência emocional que, sucedendo a um acontecimento doloroso, é vivenciada como um colapso existencial. Ambas as situações provocam dor psíquica intolerável e, em consequência pode surgir o desejo de interrompê-la por meio da cessação do viver.
A capacidade do paciente de manter o controle sobre sua vida torna-se nula ou muito reduzida. É assim que vem, ou geralmente é trazido, ao psiquiatra. Então, é esse profissional quem deve assumir, temporariamente, o controle da crise, valendo-se de vários recursos: acolhe o paciente e o mantém em segurança, convoca e orienta a família, indica uma internação hospitalar ou domiciliar, prescreve psicofármacos, encaminha ou já inicia uma psicoterapia de crise, bem como ativa outras fontes de apoio.

Trechos do capítulo Magnitude
 
Nos últimos sessenta anos, os índices de suicídio vieram aumentando, até que decresceram a partir de meados da década de 1990. Entre os anos de 2000 e 2012, dentre os 172 países que enviam seus dados sobre suicídio para a Organização Mundial da Saúde (OMS), em apenas 29 (17%), observou-se elevação de tais índices.
No Brasil, o coeficiente médio de mortalidade por suicídio foi de 5,8 mortes para cada 100 mil habitantes, em 2012, segundo estimativa da OMS.
Um coeficiente nacional de mortalidade por suicídio é uma média. Por isso, deixa de revelar as importantes variações segundo regiões geográficas e grupos humanos. Estudos epidemiológicos realizados nas duas últimas décadas mostram taxas mais elevadas nas regiões Sul e Centro-Oeste, em cidades de pequeno e de médio porte populacional, em homens, em idosos e em indígenas.
O coeficiente de mortalidade por suicídio no Brasil pode ser considerado relativamente baixo, quando comparado ao de outros países. A despeito disso, por sermos um país populoso, ocupamos o oitavo lugar entre os que registram os maiores números de mortes por suicídios. Em 2012 houve 11.821 suicídios oficialmente registrados no país, o que representa, em média, 32 mortes por dia.
Trecho do capítulo Entendimentos
Um modelo de entendimento da suscetibilidade ao suicídio inclui a participação de uma propensão biológica, movida pela genética, combinada a fatores ambientais. Alguns componentes desse modelo têm sido objeto de intensa investigação científica: traços impulsivo/agressivos, experiências traumáticas na infância (notadamente privação materna e abuso físico), desamparo, pessimismo, carência de apoio social, rigidez cognitiva, prejuízo na capacidade de solução de problemas e acesso a meios letais.
Um transtorno psiquiátrico, dentre os quais se destaca a depressão, está presente em mais de 90% dos casos de suicídio, de acordo com estudos retrospectivos realizados nos Estados Unidos e Europa. Ambos, depressão e suicídio, podem ocorrer como resposta anormal a acontecimentos estressantes.
Edwin Shneidman, psicólogo norte-americano, é considerado o pai da Suicidologia. Baseando-se tanto em um referencial psicodinâmico quanto cognitivo, cunhou o neologismo psychache (dor da alma, dor psíquica) para denominar o estado de alguém que esteja prestes a se matar. Trata-se de uma dor intolerável, vivenciada como uma turbulência emocional interminável, uma sensação angustiante de estar preso em si mesmo, sem encontrar saída.
Nessa condição, a combinação de desespero e desesperança leva à necessidade de um alívio rápido: cessação da consciência para interromper a dor psíquica. Na crise suicida, o estado de construção cognitiva não permite um leque de opções de ação para enfrentar os problemas.
Se de início a ideia de se matar parece alheia e perigosa, causando ansiedade, aos poucos, pode adquirir estrutura autônoma e tranquilizadora (alívio de tensão) e passa a ser tolerada e bem-vinda. A situação agrava-se dramaticamente quando a pessoa tem pouca flexibilidade para enfrentar adversidades e propensão à impulsividade.
Trechos do capítulo Prevenção
Atualmente, podemos afirmar que se fortalece, no país, a percepção de que o suicídio, dentro de sua complexidade, também figura como um problema de saúde pública. Há maior consciência da população de que necessitamos de estratégias mais efetivas para a prevenção da violência, incluindo-se nesse esforço a prevenção do suicídio.
Todavia, desde a publicação das Diretrizes, não se avançou em direção a um plano nacional de prevenção do suicídio, o que permitiria, entre outras coisas, dotação orçamentária voltada para ações estratégicas. Houve, pontualmente, raras parcerias do Ministério da Saúde com centros universitários, apoiadas financeiramente pela Organização Panamericana de Saúde, tendo por objetivo a realização de pesquisas e projetos assistenciais locais.
Há necessidade de transformar diretrizes políticas em ações mais efetivas, que estejam embasadas cientificamente, as quais, por sua vez, poderão orientar novas políticas de prevenção e estratégias assistenciais. Isso se constitui em um desejado círculo virtuoso entre política, assistência e pesquisa, que não é algo simples de ser alcançado.
Tabela. Níveis de prevenção, populações-alvo e exemplos de estratégias que podem ser adotadas na prevenção do suicídio.
Níveis de prevenção
UNIVERSAL
SELETIVA
INDICADA
População-alvo
Público em geral
Grupo com risco moderado
Grupo com alto risco
 
Exemplos de ações
 
Restrição de acesso a meios letais
 
Divulgação responsável pela mídia
 
Detecção e tratamento de transtornos mentais e de outras condições de saúde associadas ao suicídio
 
Acompanhamento de pessoas que tentaram o suicídio
 
 
 A divulgação pela mídia visa combater o estigma da doença mental e promover a ideia de que o suicídio é um problema de saúde pública, na medida em que, na grande maioria das vezes, encontra-se associado a transtornos mentais passíveis de tratamento. Em vez de manter o tabu de não se noticiar suicídios, os meios de comunicação devem fazê-lo com sensibilidade e ponderação.
Visando a incrementar a divulgação responsável de casos de suicídio pela imprensa, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) produziu um livreto para profissionais da área da comunicação, com sugestões a respeito de como publicar notícias sobre suicídio (ABP, 2009).
O Quadro abaixo sintetiza algumas das sugestões.
Quadro. Sugestões para reportagens sobre suicídio.
 
É incorreto simplificar um suicídio:
 
§  Cautela com depoimentos e explicações de primeira hora!
§  Pessoas entrevistadas à procura de uma causa para o ocorrido podem transmitir sua teoria que coloca a culpa em algo ou em alguém
§  Alguns entrevistados podem negar que a vítima tenha dado sinais de que planejava se matar; essa percepção costuma mudar com o passar do tempo
§  Pergunta a ser feita: a pessoa enfrentava problemas de saúde mental, já havia feito tratamento?
 
Evitar:
 
§  A palavra suicídio em chamadas e manchetes; incluí-la no corpo do texto       
§  A matéria na primeira página
§  Chamadas dramáticas
§  Ênfase no impacto da morte sobre as pessoas
§  Fotos ou detalhes do método letal
§  Certas expressões: cometeu suicídio; tentou o suicídio sem sucesso; os suicidas.
 
Aproveite a oportunidade para:
 
§  Conscientizar a população sobre prevenção do suicídio
§  Incluir um quadro com as principais características de determinado transtorno mental
§  Fornecer telefones e endereços onde obter ajuda
 
Fonte: ABP, 2009
 Apêndice
SITES DE INTERESSE
 Internacionais
 A Organização Mundial da Saúde, em sua página sobre prevenção do suicídio, traz várias informações, entre as quais, estatísticas atualizadas sobre suicídio em diversos países e manuais de prevenção para várias categorias profissionais, já traduzidas para o Português:
www.who.int/mental_health/prevention/suicide/suicideprevent/en/
 Várias organizações internacionais mantêm sites com informações atualizadas sobre suicídio e sua prevenção. Destacamos algumas :
International Association for Suicide Prevention (iasp.info)
American Association of Suicidology (suicidology.org)
American Foundation for Suicide Prevention (afsp.org)
Samaritans (samaritans.org)
Nacionais
Centro de Valorização da Vida (cvv.org.br).
Rede Brasileira de Prevenção do Suicídio (rebraps.com.br)
Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (abrata.org.br)
Apoio a Perdas Irreparáveis (redeapi.org.br)
Pravida – Projeto de Apoio à Vida (pravidaufc.webnode.com.br)
Manuais
Prevenção do Suicídio: manual dirigido a equipes de saúde mental. Ministério da Saúde/OPAS/Unicamp:
bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_editoracao.pdf
Prevenção do Suicídio no nível local: orientações para a formação de redes municipais de prevenção e controle do suicídio e para profissionais que a integram, da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul:
www.saude.rs.gov.br/upload/1339707841_Preven%C3%A7%C3%A3o%20do%20suic%C3%ADdio%20-%20orienta%C3%A7%C3%B5es%20para%20a%20forma%C3%A7%C3%A3o%20de%20redes%20municipais%20de%20preven%C3%A7%C3%A3o%20e%20controle%20do%20suic%C3%ADdio.pdf
O manual acima também tem uma versão abreviada, de bolso:
www.saude.rs.gov.br/upload/1367264760_Guia%20de%20Bolso.pdf
Comportamento suicida: conhecer para prevenir. Manual da Associação Brasileira de Psiquiatria para profissionais da Imprensa:
www.fundacaobunge.org.br/uploads/jornal_cidadania/cartilhasuicidio_2009_light.pdf
Suicídio: informando para prevenir. Cartilha lançada pelo Conselho Federal de Medicina e Associação Brasileira de Psiquiatria:
www.flip3d.com.br/web/pub/cfm/index9/?numero=14
Saúde Pública – Ação para a prevenção do suicídio: uma estrutura. Esta publicação da OMS, em Português, orienta sobre a adoção de medidas, em nível nacional, para a prevenção do suicídio:
www.crp11.org.br/suicidio.pdf
Diretrizes Nacionais para Prevenção do Suicídio
bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2006/prt1876_14_08_2006.html
 

Um comentário:

  1. Ótimo site, repleto de informações super úteis. Diria apenas como sugestão que pudessem permitir que os links dos parceiros e das organizações, bem como dos materiais alistados para download, que eles fiquem ativos.
    Também recomendaria uma mudança no tamanho das fontes e nas cores do site a fim de refletirem alegria e esperança.
    Abraços a todos que trabalham e apoiam nessa importante missão.

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